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Era Game Studio desenvolve Live Game, jogo digital que controla personagens reais

Por Rafaela Dultra.

Empresa surgiu com um grupo formado no curso de Teatro da UFBA

Jogos com a interface digital e personagens reais. Essa é a iniciativa desenvolvida pelo Era Game Studio, que nasceu como um grupo de teatro e se tornou um estúdio de games. Pioneiro na relação entre ator e dispositivo digital, o projeto cria um misto de espetáculo e jogo onde a plateia tem o controle do que acontece no palco.

A empresa surgiu a partir de um grupo proveniente do curso de Teatro da UFBA, que pesquisava possibilidades de trazer maior interatividade com essa área. Com esse objetivo, foi produzido um reality show, chamado O Programa, no qual o público escolhia quem morria e quem permanecia dentro da trama. Essa ideia acabou evoluindo para o Live Game, que corresponde ao projeto desenvolvido atualmente pelo estúdio. Nesse formato de jogo, ao invés de o jogador controlar um personagem digital, ele controla um ator,  um performer, um bailarino, etc.

Para Ana Antar, diretora geral do Era Game, a experiência proporciona que o espectador seja um agente ativo do processo criativo. A empresária, formada em Direção Teatral pela Escola de Teatro da UFBA e em Game Design pela UNEB, conta que o público influenciou no processo de criação do Live Game. “Quando fizemos essa apresentação (O Programa), escutamos muito o público jovem que eles voltavam para jogar. A partir daí, entendemos que as pessoas não estavam vindo simplesmente para assistir ao espetáculo, e sim porque queriam participar da encenação de alguma forma”.

ES:CA:PE
O mais recente projeto da ERA é ES:CA:PE, levado ao público em quatro temporadas, desde outubro de 2015. A cada temporada, uma versão diferente do jogo é criada. São os mesmo personagens, mas cada uma conta uma parte diferente da história. O subversão, a parte atual, é a última do jogo.

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Nele, há um jogador Alfa (um espectador sorteado do público), que fica com um tablet nas mãos e define estratégias para libertar os personagens. Os demais jogadores assistem à ação, interagindo e ajudando o jogador alfa.

Através de uma interface digital em 2D, o espectador controla as ações dos personagens. Cada ação do jogador no mapa corresponderá a uma ação dos atores: andar, subir, investigar, pegar um objeto, e assim por diante.

ES:CA:PE propõe uma maneira inovadora de jogar, explorando diversas habilidades,  como o raciocínio lógico, a agilidade na tomada de decisões, a observação de detalhes, a concentração multifocal, o trabalho de equipe e a memória.

Indie Games
A Era Game está dentro do desenvolvimento indie. Isso quer dizer que a empresa trabalha de maneira independente na criação dos jogos, sem financiamento público ou privado. Esse segmento foca em inovação e têm aumentado nos últimos anos devido aos novos métodos de distribuição on-line e ferramentas de desenvolvimento. Os jogos são criados normalmente por uma pessoa ou pequenas equipes. A Era, por exemplo, possui nove membros mais alguns colaboradores.

Um desses colaboradores é o Comunidades Virtuais – centro desenvolvedor de  pesquisas na área da cultura digital e produtor de jogos digitais, fixado na UNEB ( Universidade do Estado da Bahia).  A Era Game Studio está incubada dentro desse grupo, que, por sua vez, visa apoiar projetos dos cursos de sistemas informação, design e jogos digitais e suas interfaces. Com o objetivo de  fortalecer a área de games no estado da Bahia, o Comunidades Virtuais é a comunidade dentro de uma universidade que mais produziu games no Brasil.

Público desenvolvedor
De acordo com a diretora, apesar de o público não “manufaturar” os jogos, eles concebem as ideias, que posteriormente tornam-se implementações na interface digital. Ao final de cada espetáculo, é feita uma sessão de bate-papo onde os jogadores podem contar sobre a sua experiência. Dessa forma, eles acabam contribuindo para o processo de evolução dos games. “ Nós temos jogadores que acompanharam todas as temporadas e participavam desde o início do processo de desenvolvimento”, relata.  Antar revela que 90% das implementações feitas até então tiveram a ver com os feedbacks recebidos do público. “No início, os jogos tinham uma mecânica muito simples. Tratava-se de um projeto embrionário. Hoje, a interface está toda em 3D.”

O Protocolo 206,por exemplo, era um mini game, no qual existia uma única interação: um botão disponível para a plateia, que dava choques nos personagens. A qualquer momento alguém podia levantar e apertá-lo.Entretanto, as pessoas não sabiam o que ele fazia até alguém tomar a iniciativa. Toda vez que o choque ocorria, o encaminhamento da história também mudava. Esse jogo assim como todos os outros desenvolvidospela Era, estão inseridos no mesmo universo ficcional.

Para além dos palcos
O teatro não é o único espaço físico em que a Era Game trabalha. Feiras de jogos e  de tecnologia são alguns dos lugares ocupados pelo estúdio, justamente por entender a necessidade da busca por inovação e a importância do networking na área de ciência e tecnologia. A ERA esteve presente na Campus Party Bahia e na Gamepólitan, participando das duas edições de cada evento.

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A empresa também trabalha seguindo a lógica de demanda, a partir das vendas diretas.O estúdio produz jogos personalizados para escolas, empresas e outras instituições que desejem trabalhar com recursos humanos através da gamificação -tal prática consiste  no uso de dinâmicas de jogos para engajar pessoas, resolver problemas e melhorar o aprendizado. “Se uma empresa tem um problema com a falta de transparência, por exemplo, nós elaboramos um jogo que faça os funcionários pensarem de que forma eles podem resolver esse problema”, explica.

Terceira idade
Apesar de, no início, a comunicação ser focada no público jovem pela intersecção com a interface digital, a empresa não se limita a dialogar com essa faixa etária. A finalidade dos espetáculos é criar um vínculo presencial não oferecido pelos jogos digitais. Atualmente, os espectadores vão desde pré- adolescentes até a terceira idade. “Criamos um ecossistema de jogadores pensando o jogo e pensando o teatro de uma forma completamente diferente”.

O público da terceira idade, por exemplo, é frequente nos espetáculos da Era Game. O interesse de pessoas idosas foi inesperado para o estúdio. “Como toda empresa, procuramos saber porque isso estava acontecendo e descobrimos que era porque naquele espaço conseguiam dialogar com os jovens; pessoas de diferentes idades”.

Ana também enfatiza que apesar de muitas pessoas entenderem a terceira idade como “não digitalizadas”, essa compreensão não é real: A maioria delas tem smartphone, se comunicam através de rede social e jogam alguma coisa no celular. Muitas não se consideram jogadoras porque o que elas jogam não é o mesmo que o público jovem joga”.

Concorrência não teatral
Uma das motivações para a criação do projeto também vem do desejo de entender porque há falta de público em muitos espetáculos teatrais de Salvador. Antar avalia que existe um hiato no que tange ao teatro pela divisão feita entre “peças infantis” e “peças adultas”. Segundo ela, o público compreendido entre essas faixas etárias não encontra incentivo para frequentar esse espaço.

Para Ana, mesmo o projeto sendo inovador, ainda está inserido dentro de um espaço que é muito difícil as pessoas saírem de casa: “As pessoas acham que estamos competindo com um determinado espetáculo, mas na verdade,  estamos competindo com a Netflix, com o cinema, com a praça de alimentação do shopping, etc”.

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