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Palestra sobre dança africana inicia Colóquio Internacional de Arte Negra no Teatro Martim Gonçalves

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Palestra sobre dança africana inicia Colóquio Internacional de Arte Negra no Teatro Martim Gonçalves

Por João Bertonie

Uma realidade de multifaces. Desse modo, a professora Wiesna Mond-Kozlowska descreve a África, um continente de cultura profundamente híbrida. A pesquisadora polonesa apresentou seu trabalho sobre as particularidades da dança étnica africana, intitulado “Ritmos e Movimentos da África: Estudo sobre a Dança Africana na Fronteira ente Antropologia e Estética”, na última segunda-feira, 13, no palco principal do Teatro Martim Gonçalves. A palestra marcou o início do Colóquio Internacional de Arte Negra, evento promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC/Ufba).
Antes da apresentação da pesquisadora polonesa, houve duas performances no palco do Teatro Martim Gonçalves. A primeira foi uma homenagem aos famosos militantes da cultura negra, como Nelson Mandela e Armindo Bião, feita por tocadores de atabaques, em ritmo Ijexá. A segunda, uma performance da dançarina Marilza Oliveira, que fez uma homenagem cênica aos ancestrais da cultura afro-religiosa.

ANÁLISE DA DANÇA AFRICANA

Dedicada ao estudo da corêutica – sistema de análise de coreografias desenvolvido pelo teórico húngaro Rudolf von Laban (1879 – 1958) -, da estética e da antropologia da dança, Wiesna Mond-Kozlowska atua como professora adjunta na Akademia Ignatianum, em Cracóvia, Polônia. A autora de “Going Beyond Art in the Metaphysical Experience of Art” (2010) e de outras publicações busca, em seus livros, estudar a experiência da dança e do dançarino. Ela interessou-se por essa linha de investigação por enxergar a dança como “uma manifestação direta do autoconhecimento humano”, que aponta para a evidência das “origens sagradas” da arte.
Essas origens sagradas são um dos principais objetos de estudo da pesquisadora. Na análise da dança africana, a raiz sacra é, inclusive, uma das suas razões existenciais. “A dança é o dom da graça”, afirma, ao inferir sobre a origem ritualística da dança africana. Segundo ela, é muito difícil obter uma noção adequada do sagrado na dança étnica porque nossa compreensão tem sido dominada por elementos judaico-cristãos, que servem como protótipo do sagrado.
Wiesna falou também do seu esforço em analisar as fronteiras entre o sagrado e o estético na dança africana. Em sua visão, a dança se dá em um “tempo e espaço complexos”, constituindo uma linguagem autossuficiente, mas com referências emprestadas da realidade, radiando “significados simbólicos”. “Ocorre uma experiência comunitária do sagrado e expressam isso pela dança”, explica.
A tentativa de definir um “conceito ontológico” tanto do dançarino, quanto da dança, foi também um assunto posto na mesa. Esta definição é, por si só, um desafio teórico: “A obtenção da noção do dançarino e da dança africana é muito vaga pelas mudanças que sempre levam ao hibridismo nas culturas étnicas”. A polonesa compreende a África como um sistema cultural heterogêneo, tornando especialmente complexa a conceitualização destes dois elementos.
Após a palestra de Wiesna, foi aberto um espaço para discussão, mediado pela professora Suzana Martins, coordenadora do PPGAC. Um dos pontos altos da discussão foi a crítica feita à palestrante por referenciar apenas pesquisadores europeus ou que trabalham unicamente com a perspectiva europeia em seu trabalho. A isso, ela se defendeu, afirmando que ainda falta base teórica produzida na própria África, tendo a academia nigeriana como um dos poucos polos de produção intelectual nesta área de estudo. “A psiquê humana é a mesma”, disse Wiesna, ao colocar que as investigações voltadas para a dança produzidas na Europa podiam também ser aproveitadas na análise da dança africana.
O Colóquio Internacional de Arte Negra começou segunda-feira e vai até o dia 15 de outubro, com palestras, workshops e debates, promovidos no Teatro Martim Gonçalves e no Espaço Xisto Bahia.

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