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Black Fem: conheça o site criado para adolescentes e jovens negras

Por Rafaela Dultra.

Criado com o objetivo de abordar sobre a consciência negra de uma forma descontraída, o  Black Fem é um portal de notícias e artigos para adolescentes e jovens adultas negras. O projeto se propõe dialogar com esse público, tal como uma revista teen, com o diferencial de ter um recorte de gênero e raça.

Segundo I’sis Almeida, idealizadora do portal e estudante de jornalismo da Faculdade de Comunicação (Facom) da UFBA, a iniciativa surgiu em resposta ao tratamento dado às questões de raça pelos meios de comunicação da mídia mainstream. Ela também ressalta o caráter coletivo do projeto, produzido por 15 mulheres negras de diferentes idades, naturalidades e experiências profissionais.

Mesmo ainda não lançado, o Black Fem participou da última Campus Party Bahia, compondo a mesa “Descolonização da Internet: Ocupando espaços digitais”,  e da Conferência Brasil/Nordeste, na Unifacs CTN, para debater sobre “Tecnologia como Canal de Empoderamento”.

História
Inicialmente,  Black Fem era apenas uma página no Facebook criada no mesmo período que muitas outras sobre raça estavam surgindo. Black Power, Zumbi Vive, Pioneirismo e Afro Guerrilha são alguns exemplos de fanpages que buscavam o empoderamento negro no meio digital. No entanto, I’sis conta que se incomodava com o fato de não ter um lugar que discutisse gênero e raça de maneira não academicista.

“Eu acessava muito o Geledés (Instituto da Mulher Negra). Mas, às vezes, eu me sentia um pouco excluída pelo Geledés ser muito intelectual, e eu não ter tanto domínio sobre alguns assuntos”.

Ela, então, se juntou com sua amiga, Lavínia Oliveira, técnica em informática, para gerenciar a página. No início, era um compilado de fotos, vídeos, textos e  referências voltadas às mulheres negras. Entretanto, não produzia conteúdo, apenas replicava de outras páginas. E essas, por sua vez, reproduziam conteúdo de outras páginas. Aos poucos, foi alcançando um número significativo de curtidas até chegar aos 21 mil seguidores atuais. “A partir daí, a nossa ideia era aproveitar esse público e transformar em algo que não fosse meramente estético”, conta I´sis.

Outra diferença entre a página e o portal foi a mudança do público-alvo. Foi feita uma pesquisa de engajamento no Facebook e verificada a faixa etária entre 12 e 26 anos. “Isso significava que estávamos lidando primordialmente com adolescentes e jovens. Não estávamos lidando com mulheres negras em busca de empoderamento estético. Então, o nosso público é mais desengajado na causa, mas, ao mesmo tempo, está buscando um referencial”.

Representatividade
Para I’sis, ainda se faz necessário pensar nas adolescentes negras porque, apesar de revistas adolescentes, como a Capricho e a Atrevida, estarem abordando a questão da representatividade, não há algo feito por mulheres negras diretamente falando.

“Eu ainda percebo que é uma cota de representatividade por influência do neoliberalismo. É uma falácia dizer que representatividade, de fato, está existindo porque existem interesses econômicos ali”.

Mesmo não tendo o propósito academicista, O Black Fem vai debater temas étnicos, como o Kwanzaa – “Natal africano”- , por exemplo. Segundo a idealizadora, o portal precisa ser utilizado para retorno social e político, e levar empoderamento intelectual a esse público.

“Estou lidando com uma adolescente negra que, por mais que ela compreenda que é negra, ela não está dentro desse universo acadêmico e tão ativista como outras mulheres estão”.

Portal
Para levar o site ao ar, será feito um crowdfunding, mas elas ainda não decidiram qual plataforma utilizar. Segundo as organizadoras, que estão responsáveis pela vaquinha online, a meta provavelmente vai ser pequena, já que o site está pronto – precisam pagar somente o domínio.

O portal vai funcionar com a publicação de cinco artigos temáticos mensais e notícias diárias que sejam do interesse do público. Além disso, todas as pautas serão sugeridas por “pessoas de fora”. Isso se deve à logística do projeto que o impede de funcionar como uma redação.

Já a parte de social media só vai trabalhar com base em ilustrações. Os desenhos serão feitos pelas três ilustradoras do grupo para evitar eventuais problemas com ofício e direitos autorais. “Consegue interagir com o público e ao mesmo tempo traz o dinâmico do original”, explica I’sis.

Seleção
O principal critério para a seleção das colaboradoras foi a motivação de querer participar do projeto. Ao todo, são 15 mulheres. A mais velha tem 30 anos, e a mais nova, 16. “Temos uma diversidade muito grande no perfil das meninas e isso traz uma dinâmica muito interdisciplinar e coletiva para as equipes”, relata.

A maioria delas são de Salvador , mas há participantes de outros estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Essa adesão interestadual já era esperada pelas organizadoras I’sis e Lavínia.

“A gente não queria que fosse um portal somente de Salvador e, sim, de nível nacional”.

A experiência profissional delas é diversa. Há mulheres de jornalismo, design, pedagogia, estudo de gênero, direito, arte, informática e geografia. Além do Black Fem, todas estão envolvidas em outros projetos para além de suas profissões. De acordo com I’sis, o portal tem que funcionar como uma via de mão dupla.

“Elas estão aqui com algum interesse, seja conhecimento ou aperfeiçoamento profissional.É preciso que o trabalho não seja um peso para ninguém. Espero que futuramente a gente consiga bancar o trabalho de cada uma. Mas por enquanto, estamos caminhando com as próprias pernas e criando o nosso conteúdo de forma autônoma”.

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